que permanece de uma estrutura quando sua matéria começa a ruir? A partir dessa pergunta, o artista cearense Wellington Gadelha criou Desmonumento, obra que combina performance, arte sonora e cinema expandido para investigar as relações entre corpo, racialidade, arquitetura e estruturas de poder. A apresentação acontece no Petrobras Futuros – Arte e Tecnologia, de 5 a 22 de novembro, de quinta a domingo, às 19h. A criação é resultado de uma pesquisa que passou pelo Museu da Imagem e do Som do Ceará (MIS Ceará) e foi selecionada pela chamada pública nacional Brasilidades & Futuros, do Instituto Futuros, com patrocínio da Petrobras, por meio da Lei de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet), do Ministério da Cultura.
No centro da pesquisa está o tijolo, elemento tão presente na construção civil e na urbanização brasileira. Mais do que um material construtivo, ele carrega diferentes sentidos: está na base de casas, muros e edifícios, mas também estabelece fronteiras e participa da organização dos espaços e das desigualdades sociais.
“Desmonumento nasce de um conjunto de inquietações que venho investigando em minha trajetória artística. São questões que atravessam minha percepção sobre o corpo, sobre os lugares que ocupo e sobre as estruturas que organizam nossas experiências. Tenho me interessado cada vez mais por compreender como a arquitetura, a matéria e os imaginários de grandeza e permanência participam da maneira como determinados corpos, sobretudo os racializados, são vistos, situados e reconhecidos no mundo”, explica Gadelha.
A encenação transita entre as artes cênicas e a instalação imersiva. Nas projeções, pequenas fissuras do tijolo ganham proporções monumentais. Já as vibrações quase imperceptíveis do atrito entre os materiais se transformam em paisagens sonoras. Ao longo da apresentação, o público acompanha a ação física do artista no palco e, simultaneamente, sua transfiguração em diferentes escalas por meio do audiovisual, em um jogo que transforma a percepção de volume e espaço.
A escolha do tijolo também parte de uma contradição. Embora seja um dos elementos fundamentais na construção das cidades, nem sempre os corpos responsáveis por erguer as estruturas podem habitá-las ou usufruir plenamente delas. Ao mesmo tempo, para populações periféricas, o material pode representar vínculo, pertencimento e a conquista de um espaço próprio.
“Comecei a me interessar pela unidade mínima de determinadas construções, por aquilo que sustenta uma arquitetura antes mesmo de ela adquirir sua forma monumental. Foi assim que o tijolo passou a ocupar um lugar central na investigação. Os corpos que erguem determinadas estruturas nem sempre são aqueles que podem habitá-las ou usufruir plenamente delas. Por outro lado, para esses mesmos corpos periféricos, o tijolo adquire o valor de vínculo, de pertencimento e trégua: ‘minha casa’. Essa ambiguidade atravessa diretamente as questões de racialidade e espacialidade que venho investigando”, complementa o artista.
Desmonumento dá continuidade a uma pesquisa artística desenvolvida por Gadelha em três momentos interconectados. O percurso inclui AUlBA, apresentado em 2025 na Galeria da Liberdade, antigo Mausoléu Castelo Branco, em Fortaleza, e Kbça de Gelo, obra dedicada à escuta e ao tempo, realizada em 2026. A nova criação amplia essas investigações sobre matéria, corpo e espaço.
Sobre Wellington Gadelha
Wellington Gadelha, tem interesse pelas relações no campo contemporâneo a partir da composição, improvisação, dramaturgia e encenação. Com foco em dança, artes visuais, instalações e processos imersivos, arte tecnológica e arte sonora, desenvolve trabalhos e pesquisas na Plataforma Afrontamento, um espaço que tem como ação, consultoria, planejamento, elaboração de projetos e desenvolvimento de residências artísticas. Vive em Fortaleza, Ceará/Brasil e teve trabalhos apresentados em festivais, teatros e galerias nacionais e internacionais. Indicado ao Prêmio Pipa (2020), executou projetos contemplados no Rumos Itaú Cultural (2017-2018) e Funarte Artes Visuais – Periferias e Interiores (2017). Foi pesquisador pela Fundação Biblioteca Nacional e Instituto Municipal Nise da Silveira ligado à Universidade Popular de Arte e Ciência (UPAC) e, integra a Cia. da Arte Andanças e uma rede de iniciativas com ênfase em direitos humanos, periferia, juventude negra e contextos comunitários.
Ficha Técnica
Concepção, performance e direção artística: Wellington Gadelha
Dramaturgia: Thereza Rocha
Performance e desenho sonoro: Kerensky Barata
Câmera e performance Visual: Felipe Almeida
Cenografia: Estúdio Oficina | Dora Coelho
Figurino: Isac Bento
Coordenação de produção: Rafael Fernandes
Produtora: Himiny
Identidade Visual: Charles Pereira
Assessoria de imprensa: MercadoCom (Ribamar Filho e Victor Santos)
Produção: Quafá Produções
Realização: Plataforma Afrontamento
Este espetáculo é realizado com recursos da Chamada Pública Brasilidades & Futuros, no âmbito do PRONAC 2410478 – BRASILIDADES & FUTUROS – ARTES CÊNICAS, realizado pelo Ministério da Cultura e pelo Instituto Futuros, através da Lei Rouanet.
SERVIÇO
Desmonumento
Temporada: 5 a 22 de novembro de 2026
Data e horário: Quinta a domingo, às 19h
Local: Petrobras Futuros - Arte e Tecnologia
Endereço: Rua Dois de Dezembro, 63 - Flamengo, Rio de Janeiro – RJ
Classificação Indicativa: 12 anos
Lotação: 63 lugares, sendo 1 espaço para PCR, 1 assento para pessoa obesa e 1 assento reservado para acompanhante de PCR.
Ingressos gratuitos: https://bileto.sympla.com.br/event/129283/d/424644/s/2748933
PROGRAMAÇÃO
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